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Os Sertões de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha (3/3)

Em Guimarães, interessa o encontro literário do homem com seu significado e destino, a difícil compreensão de seus atos e paixões, as tensões nas relações humanas que se revelam menos pelas condições de poder (que são aquelas que terminam por impor a Euclides uma mudança de perspectiva em seu projeto original) do que pela herança espiritual, misteriosa, afim ao milagre mesmo da existência em um mundo cuja natureza revela não sua matéria mesma, mas a própria corporificação do divino.

 

            Talvez a compreensão do Brasil como nação passe pela abordagem diferenciada, conforme propostas diametralmente opostas, de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Vemos, assim, o sertão não apenas como algo que pode ser medido e compreendido pelos métodos científicos, que opõe a barbárie dos despossuídos de razão à civilização de padrão europeu que se sobrepõe e se cristaliza; tampouco se esgota na visão literária de Guimarães Rosa, cujos interesses passaram ao largo do exame mais acurado das relações sociais fundadas na posse da terra e do poder militar, conforme fez Graciliano Ramos, espraiando-se na busca dos fundamentos imateriais e ahistóricos da vida enquanto mistério e milagre. O encontro de Rosa e Euclides exprime o desencontro do país consigo mesmo, sua forma de ser, de olhar e se dizer.

Os Sertões de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha (2/3)

            Guimarães Rosa, apesar de pautar seus arquetípicos sertanejos nos mitos que se solidificaram em território europeu, muitos dos quais encontraram expressão literária nos romances de cavalaria, constrói sua própria geografia sem participação do discurso científico, base que Euclides da Cunha considerava segura para abordar a questão sertaneja, apesar de todas as fragilidades conceituais que o levaram, inclusive, a considerar questões eugênicas para compreender o caráter do homem. Em Rosa, o mesmo sertanejo possui relação direta com o tempo e a história somente por via mística; seus personagens ensejam pelo encontro com a totalidade através da poesia de caráter francamente metafísico; sua linguagem não é a do sertanejo conhecido por Euclides, mas a do sertanejo criado pelo próprio escritor, mesmo com a incorporação de vocábulos próprios e porventura falados pelos homens com que conviveu. O universo de Rosa é, em uma palavra, literário, e o de Euclides o “real”, abordado através de ferramentas do poder científico, estruturado em um corpo de doutrinas enfeixadas pelo ideário positivista, ao qual Euclides era fiel.

 

            Por isso não há nada mais distante do que o sertão de Euclides da Cunha àquele supostamente narrado em termos exclusivamente literários por Guimarães Rosa; embora o primeiro tenha se valido da literatura, recobrindo a análise dos processos sociais sob crivo científico com técnicas literárias, imprescindíveis para tentar descrever o conflito civilizatório que aparentemente opunha o Brasil do passado com o do presente e seu projeto de futuro, mas que se apresentava mais complexo, rico e profundo, onde o elemento de classe social avultava sobre os processos civilizatórios e impunha, não por força da ciência, mas do preconceito social, o programa político do então recentemente governo republicano, cujo interesse residia em demonstrar, através da vitória no conflito de Canudos, a superação do Brasil monarquista, o que implicava em provar teses controversas de superioridade racial e cultural do homem de cultural ocidental, seguindo assim o exemplo do Facundo de Sarmiento.

Os Sertões de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha (1/3)

Não apenas em Grande Sertão: Veredas, mas também em suas demais obras, Guimarães Rosa elabora um território mais literário e mítico do que realista; seus “sertões” possui tênue correspondência com as pessoas, cidades, fazendas e relações sociais do vasto território que compreende o norte de Minas Gerais, se estendendo ao interior da Bahia e demais estados do Nordeste. A correspondência imediata dos lugares e personagens de Rosa não se encontra o Sertão, conforme visto e detalhado por Euclides da Cunha em sua principal obra, Os Sertões, que partiu de uma reportagem sobre uma campanha militar contra um grupamento de sertanejos liderados por um religioso, tido por fanático e, pior, monarquista, Antonio Conselheiro, mas resultou em uma análise que funde jornalismo, literatura, sociologia, história e antropologia, através de um projeto que se constituiu ao sabor dos acontecimentos e se descortinou a Euclides da Cunha como síntese da Condição Nacional, tendo à memória obra comparável, o Facundo, do argentino Domingo Faustino Sarmiento, cujo subtítulo, Civilização e Barbárie, exprime com precisão as ideias que formaram o corpo da obra, que opõe campo e cidade, ocidente e oriente, gaúcho e citadino, conclamando a nação argentina à filiação ao modelo civilizatório europeu, à fé religiosa católica como instrumental para a realização da cultura.

O ensino da Literatura Brasileira (6/6)

Mais empenhado acerca da defesa da literatura, o livro “A Aula” de Roland Barthes é uma celebração da literatura como mathesis (lugar onde giram os saberes), mimesis (lugar do fulgor do real) e semiosis (lugar do signo imaginário). Quanto à possibilidade de seu desaparecimento, Barthes respondia que era preciso teimar, afirmar o caráter irredutível da literatura, “agir como se ela fosse incomparável e imortal.” E acerca de seu ensino, o autor declarava, mais do que sua necessidade, sua prioridade:

Se, por não sei que excesso de socialismo ou barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que deveria ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário (...). A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro: a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor que ela sabe algo das coisas – que sabe muito sobre os homens.”

Enfim, façamos valer enquanto professores-educadores a importância da literatura para a formação acadêmica do aluno e formação de vida, e da literatura brasileira, em particular, uma via aberta para as consciências diante de um mundo que, mais que aberto, nos invade e globaliza, antes mesmo que percebamos, em nós, a singularidade do ser e estar no mundo em determinado lugar, e este lugar, por enquanto, é aqui.

O ensino da Literatura Brasileira (5/6)

Já no ensino médio, o texto, que deveria ser o centro das atividades de uma aula de literatura, espaço para negociação de diferentes leituras e construções de sentido, geralmente acaba por assumir um papel periférico quanto a essas possibilidades.

No âmbito do ensino universitário, no ensino da literatura, os professores se indagam acerca do recorte de autores a serem estudados na história de cada estilo de época. Uma hipótese de trabalho a ser apresentada por diversos pesquisadores é organizar o curso em unidades temáticas e, a partir de cada uma delas, abrir um amplo leque de leituras confrontando autores que, de alguma forma contribuíram para referendar a importância do tema em foco.

Temos dois caminhos que o professor pode seguir ao longo do ensino da literatura em sala de aula: a forma convencional de estudar literatura, que parte das origens para chegar à contemporaneidade e o outro caminho corresponde à forma que parte da contemporaneidade para chegar às origens.

O professor e poeta Haroldo de Campos, ao discutir o ensino de literatura, já defendia a necessidade de se criar uma nova antologia da literatura brasileira sob o ponto de vista sincrônico e testar o corpus assim obtido no ensino de vários graus. O poeta via então a literatura como um espaço de simultaneidades capaz de aproximar, por exemplo, Fernando Pessoa e Camões ou Álvares de Azevedo e Carlos Drummond de Andrade e assim nos fez ver o passado naquilo que ele tem de novo.

Leyla Perrone-Moisés assinala que atualmente, a literatura parece contentar-se com espelhar uma realidade fragmentada, desprovida de valores e, portanto, de utopia. Um artigo publicado por Jeff Guin no New York Times no ano de 1997 tinha o sugestivo título: “Quem sobreviverá ao lixo literário?” O autor preocupava-se com o risco de os estudantes norte-americanos do futuro só poderem ter acesso aos best-sellers, às obras “politicamente corretas” ou às aprovadas pela censura e pelos puritanos. Se isso acontecer, dizia ele, a perda será deles e a vergonha nossa. Em todos esses debates, é a responsabilidade dos professores de literatura que está em jogo.

Frank Kermode colocou a questão de modo áspero:

Os professores universitários podem ler o que quiserem, desconstruir ou neo-historicizar o que quiserem, mas dentro de uma sala de aula deveriam assumir honrosamente sua função de fazer com que as pessoas conheçam os livros suficientemente para saber o que, neles, é digno de amor. Se falharem nisso, quer porque  desprezem a humildade da tarefa, quer porque eles mesmos não amam a literatura, eles são fracassos e fraudes.”

Fica aqui a pergunta para pensarmos no próprio ensino da literatura e seu lugar enquanto objeto em via de se perder: “Estará a literatura realmente em via de desaparecimento e a Biblioteca Clássica ameaçada de despejo?

O ensino da Literatura Brasileira (4/6)

Os grupos particularistas reivindicaram uma “abertura” do cânone, a inclusão no mesmo de todos os que foram excluídos e ocultados em nome da ideologia até então dominante. A exigência de “abertura do cânone” repousa sobre várias contradições e mal-entendidos. Primeiro: o cânone nunca foi esta identidade imóvel e intocável contra a qual investem os particularistas. Na concepção de Leyla Perrone-Moisés, o cânone sempre esteve aberto a novas inclusões; sabe-se que ele é sujeito a mudanças históricas, que é sempre provisório. Inclusões e exclusões dependem de juízos estabelecidos ao longo de largos períodos de tempo. Cânone e tradição implicam, necessariamente, duração. Portanto, aberturas, inclusões e exclusões instantâneas, como as que reivindicam os particularistas, são contraditórias com o próprio conceito de cânone. Tais reivindicações são o que Ana Balakian, em obra recente chamou ironicamente de “assédio ao cânone”.

Já para Harold Bloom, autor de “O Cânone Ocidental”, sendo a recepção da grande literatura algo tão privado, tão triste e tão difícil, ele está, necessariamente, reservada para poucos, bem como seu ensino que, como a crítica, é e tem de ser uma atividade elitista. Leyla Perrone-Moisés dirá que a defesa essencialista do cânone ocidental é tão inaceitável (e inútil) quanto a defesa de qualquer modelo cultural. O cânone, como um dos quadros de valores de uma cultura determinada, é relativo a essa cultura, está fadado à transformação e sujeito ao desaparecimento, como todas as manifestações humanas. Ou o cânone resiste por ser reconhecido como ativo pela cultura viva, ou ele se torna letra morta, cuja defesa só pode ser feita por uma imposição autoritária. Diz Leyla Perrone:

Querer dirigir ou orientar a cultura de modo autoritário é sempre nocivo para a mesma. O cânone, como a cultura, segue seu caminho. O que podemos fazer é contribuir para que esse caminho não seja desprovido de memória e projeto.”

O ensino da Literatura Brasileira (3/6)

O redimensionamento da própria noção de literatura sobre a qual se tem montado o ensino, conjuga três papéis distintos: a literatura como instituição nacional; a literatura como disciplina escolar que se confunde com a história literária; a literatura como cada texto consagrado pela crítica como literário. O que precisamos nos deter quanto ao ensino da literatura brasileira é o modo como os manuais didáticos apresentam autores e movimentos literários (no caso do ensino médio), privilegiando um estudo mais multidisciplinar da literatura.

A prática do ensino de literatura mais comum hoje no Brasil consiste em circunscrever o conteúdo a ser desenvolvido em dois domínios essenciais. Em primeiro lugar a prática se volta para a construção de alguns conceitos básicos relativos à teoria literária considerados ferramentas indispensáveis para lidar com o texto literário.  Esses conceitos em geral são os seguintes: linguagem literária/linguagem referencial; gêneros literários; verso e prosa, ponto de vista narrativo, etc.

Em segundo lugar, considerando-se que aluno já estaria preparado para lidar com um novo objeto, a prática se direciona para o texto literário de época, visto de modo sistematizado e de acordo com a perspectiva histórica. Outros elementos são envolvidos neste processo, tais como aspectos da biografia do autor e do contexto histórico-social, também são solicitados, além da apresentação do movimento literário, com datas limítrofes e indicação de seus principais autores, com aspectos da biografia de cada um e leitura de alguns dos seus textos ilustrativos.

Conforme ainda comenta Leyla Perrone-Moisés, no contexto recente e atual do ensino da literatura, a questão do cânone tornou-se candente. O cânone ocidental, constituído de “homens brancos mortos”, foi posto sob suspeita; a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico, como uma série de manobras mais ou menos claras das elites no poder, e o resultado foi a condenação. Mostrar os componentes ideológicos na formação do cânone é o óbvio. Atribuir sua constituição exclusivamente a interesses imediatos de classes ou de grupos sedentos de poder é restringir enormemente as motivações dos escritores, críticos, professores, e subestimar a função das obras literárias na sociedade.

O ensino da Literatura Brasileira (2/6)

Nas universidades norte-americanas, por exemplo, a literatura tende a desaparecer como disciplina autônoma, integrando-se aos estudos culturais, ou multiplicando-se e particularizando-se em razão da abordagem ideológica de grupos militantes: estudos de gênero, estudos pós-coloniais, estudos multiculturais, etc.

Enquanto isso, nos países norte-americanos, o estrangulamento dos departamentos literários já se torna manifesto, em cortes de verbas e redução do número de professores “apenas literários”. De acordo com Leila Perrone, na própria associação Internacional de Literatura Comparada, o avanço dos estudos culturais, em detrimento dos estudos especificamente literários é visível. Ou seja, a literatura não interessa mais por ela mesma, o que interessa é “literatura como...” (como depositária da memória cultural, como colonizadora e/ou descolonizadora, como expressão das diferenças sexuais, como ideologia, etc).

Na França, na Inglaterra e na Alemanha, mantêm-se ainda os departamentos de literaturas nacionais, segundo o modelo implantado no século XIX. Evidencia-se cada vez mais que a segmentação em literaturas nacionais é um anacronismo, e que o comparatismo, no sentido mais amplo do termo, é o melhor caminho para os estudos literários, num mundo que tem, como o nosso, uma visão conjunta do passado e uma informação geral do presente.

No Brasil, embora se mantenham, em muitas universidades, os departamentos de teoria literária e os cursos de literatura nacionais hegemônicas, o multiculturalismo, o pós-colonialismo, o sexismo e outras tendências voltadas para a particularidade aparecem como novos conteúdos de programas de teses, ou como disciplinas optativas. Há mesmo a categorização de livros de acordo com suas características “democráticas”, classificando-se um livro como mais ou menos democrático de acordo com as menções que faz das minorias: se há citações derrisórias gays, negros, índios, portadores de deficiência física ou demais especificidades humanas e culturais, um livro pode ser banido das bibliografias, o que cria alguns problemas até mesmo humorísticos: sendo Bentinho, de “Dom Casmurro”, um representante, para determinada corrente, do comportamento machista e patriarcal, e Capitu da vileza feminina, o livro de Machado de Assis deveria, certamente, ser banido, pois está carregado de péssimos exemplos aos nossos cidadãos multiculturais...

O ensino da Literatura Brasileira (1/6)

Podemos dizer, com Leila Perrone-Moisés, que, a literatura implica a existência de leitores, sua sobrevivência, como arte da linguagem e atividade provida de valor próprio, depende muito de sua manutenção nos currículos escolares. O ensino da literatura sofreu grandes modificações através de nosso século. Do historicismo fillológico-positivista do início do século, passando pela estilística, o estruturalismo e a semiótica, foram mudando os métodos e as inspirações colhidas das ciências humanas (história, sociologia, lingüística, psicanálise) sem que no entanto os adeptos desses métodos deixassem de acreditar na especificidade de seu objeto. Mas, segundo a autora, desde a década passada é o próprio objeto que está sendo questionado, no ensino da literatura.

Esse questionamento do próprio objeto literário decorre de um desprestígio das disciplinas genericamente chamadas de “humanidades” e do conseqüente remanejamento destas disciplinas no sentido de aglutinação em blocos menos especializados. Isso também se deve à diluição dos estudos literários nos chamados estudos culturais, mais preocupados com a ideologia do “politicamente correto” do que com o trabalho específico da linguagem que caracteriza as “altas literaturas”.

Conforme ainda comenta a autora, há várias décadas vem se evidenciando a tendência, por parte dos dirigentes universitários, a ver as humanidades como “improdutivas” e o ensino literário como “perfumaria”. Também se nota a tendência à sujeição do ensino literário ao ensino das línguas estrangeiras, estas inegavelmente úteis para a globalização econômica.

Confinados a um espaço cada vez mais estreito, os estudos literários têm modificado seus currículos, programas e métodos, adequandos-os  a essa tendência que não é mais o diálogo entre as disciplinas, mas a perda das especificidades. Os currículos universitários atuais apresentam uma grande diversidade, e as próprias disciplinas em que se encaixa o ensino da literatura variam conforme os países e as universidades.

Nacionalismo na Literatura Brasileira (5)

O Manifesto Pau-Brasil representou uma posição de redescoberta do mundo e do Brasil. E movimento antropofágico foi um desdobramento do primitivismo pau-brasil e uma reação ao nacionalismo verde-amarelo. Oswald propugnava uma atitude brasileira de devoração ritual dos valores europeus, a fim de superar a civilização patriarcal e capitalista, com as suas normas rígidas no plano social e os seus recalques impostos no plano psicológico. A antropofagia a que se refere Oswald é uma metáfora do que deveríamos repudiar, assimilar e superar em prol de nossa independência cultural; diagnóstico de uma cultura reprimida por uma colonização predatória e também vista como uma forma eficaz de reação contra a violência aqui praticada pelo processo colonizador.

No seu projeto de reconstrução da cultura, pela “aglutinação” do acervo colonizador, o manifesto a Oswald de Andrade contrapõe a generosa utopia do matriarcado do Pindorama, nos termos seguintes:

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama”.

            Através dessa pesquisa do “sentimento nacional”, pela primeira vez a poesia brasileira iria assumir a consciência de que impunha criar-se a si mesma, sem copiar as modas européias. Era preciso autodeterminar-se, refletindo a gente e o meio que lhe davam origem. Primitivismo, pau-brasil, verde-amarelismo, Antropofagia e Anta, afinal, queriam a mesma coisa: um Brasil no original e exportador de poesia, não importador. Assim, o insight oswaldiano do pau-brasil e da antropofagia, como vertentes não conservadoras nem autoritárias de se interpretar o nacionalismo, fora da ótica ufanista, aponta para o aproveitamento frutífero e criativo das influências européias, sintetizando-as em novas formas e novas possibilidade de transcriação, sem apelos reacionários ou adesões automáticas aos programas importados, modernistas ou não.

Nacionalismo na Literatura Brasileira (4)

De acordo com Benedito Nunes, as correntes de vanguarda, inclusive a futurista, deram ao primitivismo o alcance de uma idéia polêmica, utilizando-a para acentuar e manter a ruptura com as tradições e convenções do passado. A palavra tornou-se um signo de discordância com a arte, de crítica dos emblemas da cultura intelectual e de oposição à sociedade. Mas o primitivismo também foi uma metáfora irredutível, significando, numa sucessão de acontecimentos em cadeia a que remetia, como a difusão da arte dos primitivos desde os fins do século XIX pela pesquisa etnográfica, a relativização dos valores da civilização ocidental pelo desenvolvimento da Antropologia e o conhecimento do inconsciente pela Psicanálise, a descoberta em nossa época do pensamento selvagem. A respeito do primitivismo nativo de Mário e de Oswald de Andrade, o autor faz o seguinte comentário:

            O nosso primitivismo nativo condensou a visão pura do Cubismo, a imaginação sem fios do Futurismo, a agressividade dadaísta e a tensão surrealista entre o consciente e o inconsciente, ou seja, sintetizava o conjunto das idéias e dos processos que constituíram a perspectiva estética central do Modernismo”.

            Pregando o retorno ao primitivo, porém ao primitivo em estado de pureza, ou seja, sem compromissos com a ordem social estabelecida: religião, política, economia. É uma volta ao primitivo antes de suas ligações com a sociedade e cultura ocidental européia. De acordo com Afrânio Coutinho, Oswald quis remontar às fontes de uma civilização para sempre desaparecida, a do Brasil, anterior à cruel invasão portuguesa.

            Portanto, O Manifesto Pau-Brasil, em suas linhas gerais, pode ser articulado em torno de três temas geradores: a valorização dos estados brutos da cultura coletiva; a decomposição irônico-paródica dos suportes intelectuais da cultura brasileira e a conciliação da floresta e da escola, ou seja, imbricar a cultura nativa com uma outra atitude, intelectualizada. Mas, contrariamente ao que alguns críticos costumam divulgar, o Manifesto Pau-Brasil não é mera importação e divulgação de idéias européias. Ele se propõe a sintetizar uma concepção da cultura brasileira: uma cultura de tradição européia, mas que possui originalidade nativa outrora marginalizada. Seu projeto é libertar esta originalidade – matéria prima da poesia pau-brasil – através de novos recursos, digerindo o produto final, o que significava tentar alcançar um equilíbrio entre a tradição original e a arte contemporânea.

Nacionalismo na Literatura Brasileira (3)

Apesar do seu lado vanguardista, o modernismo foi no Brasil um movimento profundamente comprometido com a tradição, ao resgatar um passado colonial que jazia praticamente enterrado e esquecido. Falemos, portanto, da acentuada inspiração nacionalista de Oswald de Andrade, por exemplo, assim como a vertente denominada primitivismo. Ele propõe, em seu Manifesto Antropófago, a devoração crítica dos aportes estrangeiros, de forma integrativa. A metáfora do antropófago supõe, como na prática indígena, a admiração pelo objeto devorado e a assimilação de suas qualidades. A teórica Lucia Helena aponta um conservadorismo forte, visão ufanista aguda, e anseio pelo folclorismo que comandam a rejeição social e contaminam  algumas das correntes modernistas brasileiras, dentre elas alguns setores da vertente primitivista. Após Klaxon, de perfil mais universalizante e onde os modernistas, a exemplo de Sergio Milliet, publicavam textos em francês – o Primitivismo foi a palavra de ordem dos renovadores.

            Entre os nacionalistas mais ferrenhos do Modernismo, encontraremos Plínio Salgado. Ao expor as diretrizes do movimento Anta, manifesta um antieuropeísmo raivoso: “Vivemos, desde nossa independência política, como miseráveis escravos da cultura européia.” Ele declara que seu grupo está em guerra contra tudo que é estrangeiro e foi inculcado no brasileiro. Roberto Schwarz, voltando ao sentimentalismo de cópia e inadequação causado no Brasil pela cultura ocidental, deixa claro que o programa de Oswald de Andrade lhe alterava a tônica. Este propunha uma postura cultural irreverente e sem sentimento de inferioridade, metaforizado na deglutição do alheio: cópia sim, mas regeneradora. É o primitivismo local que devolverá à cansada cultura européia o sentido moderno, quer dizer, livre da maceração cristã e do utilitarismo capitalista.

            Mas ser primitivista, o que era? Segundo Oswald de Andrade, implicava em marcar um encontro entre a floresta e a escola. De um lado a tradição, de outro, a modernidade. Era tornar a renovação um elemento mediador entre as fontes originais, que deviam ser resgatadas da opressão colonizadora, herdada por nossas elites, e a nova escala que nos vinha das técnicas artísticas e sociais do mundo europeu. Conforme ainda analisa o autor, era como ser o antropófago: “deglutir” a sabedoria acadêmica, o eruditismo, a partir de um intercâmbio com as conquistas européias aclimatadas a uma compreensão nada xenófoba do nacional, idealizado na utopia do Pindorama, desde os mitos paradisíacos alimentados pela Carta de Pero Vaz de Caminha.

Nacionalismo na Literatura Brasileira (2)

A poesia pau-brasil tem como programa do movimento a libertação do verso, em fase criadora depois da destruição futurista e o nacionalismo, que deveria libertar-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Oswald queria uma poesia primitiva, correspondente ao exotismo europeu, pelo qual optara em rejeição ao cubismo e super-realismo. A poesia pau-brasil inclui uma série de anotações sobre o que tomava como característico da paisagem, da índole e da vida nacional, a começar pela versificação de fragmentos da Carta de Pero Vaz de Caminha.

No caso da produção paulista, os melhores documentos do processo de redescoberta do real brasileiro estão no Manifesto (1924) e no livro de Poesia Pau-Brasil (1925) e no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. O manifesto Pau-brasil escrito por Oswald de Andrade foi inicialmente publicado no Correio da Manhã, edição de 18 de março de 1924. Oswald propõe no manifesto uma literatura extremamente vinculada à realidade brasileira, a partir da redescoberta do Brasil.

Em 1926, como uma resposta ao nacionalismo do Pau-Brasil, surge o grupo Verde-Amarelismo, formado por Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo. O grupo criticava o “nacionalismo afrancesado” de Oswald de Andrade e apresentava como proposta um nacionalismo primitivista, ufanista e identificado com o fascismo. Parte-se para a idolatria tupi elege-se a anta como símbolo nacional.

Oswald contra-ataca em sua coluna publicada no Jornal do Comércio. Nele, Oswald faz uma série de brincadeiras, utilizando palavras iniciadas ou terminadas em anta. Em 1928 o autor escreve o Manifesto Antropófago, ainda como resposta aos seguidores de Anta. O movimento Antropófago surgiu como uma nova etapa do nacionalismo Pau-Brasil e como resposta ao grupo verde-amarelista, que criara a Escola de Anta.

Podemos resumir os movimentos primitivistas do Pau-Brasil e do manifesto Antropófago como:

 

Pau-Brasil:

1.  a junção do moderno e do arcaico brasileiros

2.      a ironia contra o bacharelismo

3.      a luta por uma nova linguagem

 

Manifesto Antropófago:

 

1.      a retomada das raízes

2.      o humor como forma crítica

3.      a criação de uma utopia brasileira

Nacionalismo na Literatura Brasileira (1)

Um dos mais importantes temas que surgem do relacionamento entre o nosso modernismo e as vanguardas européias é o do nacionalismo. Os modernistas retomaram temáticas que foram exploradas pelo Romantismo, como a questão da identidade brasileira, o afeto multirracial e a idéia de uma cultura brasileira popular como um bem a ser preservado são princípios que as diversas tendências modernistas desde o início agitaram, sem a idealização dos românticos em torno das idéias de nação e do herói nacional.

            As relações entre modernidade e nacionalidade é uma temática com preocupação antiga em nossa literatura. Os cronistas, Gregório de Matos, os árcades, os românticos e realistas com ela conviveram, até chegarmos no Modernismo.

 De acordo com Ítalo Moriconi, nosso Modernismo passou de raspão pelo vanguardismo importado e afirmou-se sobretudo como movimento abrasileirador da cultura. Foi muito mais e em torno de concepções da relação entre cultura e nacionalidade que se deram as polêmicas entre grupos e periódicos de combate modernistas no Brasil da década de 1920. Pau-brasil versus verdeamarelismo, antropofagia versus anta, regionalistas pernambucanos x paulistas nacionalistas: foi a questão do nacional, e do nacional dentro do mundial, que mais seduziu nossos vanguardistas modernistas.

Para Afrânio Coutinho, os movimentos pau-brasil, verdeamarelo e o regionalista traziam um ponto em comum: o interesse pelo país, sua gente, suas coisas, paisagens, destino e problemas. Essa preocupação de valorizar o nacional fez da poesia modernista, como observou Carlos Drummond de Andrade, “em grande parte, uma poesia de região, de município e até de povoado, que se atribuiu a missão de redescobrir o Brasil, considerando-o antes encoberto do que revelado pela tradição literária de cunho europeu.”

Conforme ainda comenta o teórico, assim como o movimento “verdeamarelo” se transforma no da “Anta” também o pau-brasil se transmuda no da antropofagia, tendo Oswald de Andrade como chefe. Sendo opositor do verdeamarelismo, Oswald prega o retorno ao primitivo. Oswald pensou então em fazer uma poesia de exportação e não de importação, baseada em nossa ambiência geográfica, histórica e social. Como o pau-brasil foi a primeira riqueza brasileira a ser exportada, o autor denominou a o movimento de Pau-Brasil.

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